Odete Alucinada (João Pedro Rodrigues, 2005)
"EU NÃO ESTOU INTERESSADO EM NENHUMA TEORIA"
Categorizar sempre é algo duríssimo de se fazer. O Cinema é tantos cinemas quantos são as pessoas que trabalham para realizá-lo. Aproximações entre trabalhos que se relacionem são sempre bem vindas, ajudam a construção de pontos de vistas mais amplos do que os de uma filmografia específica. Mas, de tempos em tempos, surgem realizadores que inauguram uma categoria nova e exclusiva, uma categoria onde só caiba ele mesmo, dado o sopro de (sim, isso ainda é possível) novidade que imprimem em suas obras. Esse "Odete Alucinada" confirma que foi aberta uma nova categoria no cinema, chamada simplesmente de João Pedro Rodrigues, o jovem diretor português em seu segundo trabalho a ser exibido no Brasil.
"Odete Alucinada" é a depuração da mesma postura existente em "O Fantasma" (2000), seu filme anterior. João Pedro Rodrigues vira seus olhos para um tipo de personagem que não é necessariamente "cinematográfico", personagens que as histórias (antigas e contemporâneas) sempre se preocuparam em esconder, em ignorar a existência, ou então em relegar à um espaço mínimo nas tramas, espaço esse envolvido numa carga de exotismo ou, pior, de depreciação e escárnio. São personagens marginais, em seu sentido global: vivem à margem das regras sociais estabelecidas, acreditam em coisas absolutamente diversas das crenças gerais, amam, choram, transam e sentem como os "incluídos" nunca se permitiriam - talvez porque estes ignorem esta outra possibilidade de existência que não a "normal". É aqui que a mão de Rodrigues se faz presente: ao considerar o marginal como protagonista, não o olha de fora (pensemos nas dúzias de filmes feitos sobre esse tipo de gente em que as narrativas surgem de fora para dentro, da normalidade do autor e sua câmera para a anormalidade de seus personagens - de "Perdidos na Noite" à "Garota, Interrompida"). Não há propriamente um "mergulho" no mundo alucinado de Odete, a câmera simplesmente "é" desse mundo, e daí que não poderia nunca ver a obsessão de uma mulher pela idéia da gravidez como algo exótico (ou qualquer outro julgamento do "mundo exterior"): câmera e Odete são feitos da mesma matéria-prima.
O passo seguinte de João Pedro Rodrigues é dar corpo a esse meio. Para isso, procede de maneira semelhante àquela surgida nos trabalhos iniciais de Pedro Almodóvar: produzir a partir do mundo à margem significa buscar os padrões próprios através dos quais esse mundo é regido, e considerar o que é inicialmente marginal como o estabelecido, traduzir a anormalidade (quando vista de fora) para uma normalidade (quando vista de dentro). Essa é uma operação arriscada, que pode soar - como nos primeiros filmes de Almodóvar - como o elogio puro da transgressão. O que o diretor português alcança em "Odete Alucinada" é justamente eliminar, ou melhor, inverter a idéia de transgressão como regularmente entendida: num mundo marginal-convertido-em-normal, o que há de transgressor é a aceitação, pela mãe do rapaz morto, do suposto neto que Odete carrega na barriga, ao mesmo tempo em que as cenas da prostituição de Rui, o amante do rapaz morto, são encaradas como a normalidade, ou mais ainda, como traduções possíveis do sentimento de luto aterrador vivido pelo rapaz. O universo de "Odete Alucinada" tem regras próprias, quase que opostas às regras pelas quais os espectadores conduzem suas vidas, e no entanto, desde a primeira cena (um longo zoom-out de um beijo apaixonado de Rui com seu namorado), João Pedro Rodrigues nos faz olhar para esse mundo como se a ele pertencêssemos. As reviravoltas, as bizarrices, as loucuras, estando ali dentro, não são mais que os desdobramentos prováveis de uma história simples de um rapaz que perde o grande amor de sua vida e de uma mulher que deseja ter um filho acima de todas as coisas. Por pensar o cinema como um espaço onde é possível incorporar a diversidade sem nunca ter sobre ela um olhar paternalizador ou julgador, e mais ainda, tratar a diferença como a possibilidade de pensá-la por dentro, e fazer surgir dali um cinema gêmeo do meio em que foi gerado, João Pedro Rodrigues já ganha uma categoria para si, e bem no alto da prateleira dos grandes realizadores atuais.
Categorizar sempre é algo duríssimo de se fazer. O Cinema é tantos cinemas quantos são as pessoas que trabalham para realizá-lo. Aproximações entre trabalhos que se relacionem são sempre bem vindas, ajudam a construção de pontos de vistas mais amplos do que os de uma filmografia específica. Mas, de tempos em tempos, surgem realizadores que inauguram uma categoria nova e exclusiva, uma categoria onde só caiba ele mesmo, dado o sopro de (sim, isso ainda é possível) novidade que imprimem em suas obras. Esse "Odete Alucinada" confirma que foi aberta uma nova categoria no cinema, chamada simplesmente de João Pedro Rodrigues, o jovem diretor português em seu segundo trabalho a ser exibido no Brasil.
"Odete Alucinada" é a depuração da mesma postura existente em "O Fantasma" (2000), seu filme anterior. João Pedro Rodrigues vira seus olhos para um tipo de personagem que não é necessariamente "cinematográfico", personagens que as histórias (antigas e contemporâneas) sempre se preocuparam em esconder, em ignorar a existência, ou então em relegar à um espaço mínimo nas tramas, espaço esse envolvido numa carga de exotismo ou, pior, de depreciação e escárnio. São personagens marginais, em seu sentido global: vivem à margem das regras sociais estabelecidas, acreditam em coisas absolutamente diversas das crenças gerais, amam, choram, transam e sentem como os "incluídos" nunca se permitiriam - talvez porque estes ignorem esta outra possibilidade de existência que não a "normal". É aqui que a mão de Rodrigues se faz presente: ao considerar o marginal como protagonista, não o olha de fora (pensemos nas dúzias de filmes feitos sobre esse tipo de gente em que as narrativas surgem de fora para dentro, da normalidade do autor e sua câmera para a anormalidade de seus personagens - de "Perdidos na Noite" à "Garota, Interrompida"). Não há propriamente um "mergulho" no mundo alucinado de Odete, a câmera simplesmente "é" desse mundo, e daí que não poderia nunca ver a obsessão de uma mulher pela idéia da gravidez como algo exótico (ou qualquer outro julgamento do "mundo exterior"): câmera e Odete são feitos da mesma matéria-prima.
O passo seguinte de João Pedro Rodrigues é dar corpo a esse meio. Para isso, procede de maneira semelhante àquela surgida nos trabalhos iniciais de Pedro Almodóvar: produzir a partir do mundo à margem significa buscar os padrões próprios através dos quais esse mundo é regido, e considerar o que é inicialmente marginal como o estabelecido, traduzir a anormalidade (quando vista de fora) para uma normalidade (quando vista de dentro). Essa é uma operação arriscada, que pode soar - como nos primeiros filmes de Almodóvar - como o elogio puro da transgressão. O que o diretor português alcança em "Odete Alucinada" é justamente eliminar, ou melhor, inverter a idéia de transgressão como regularmente entendida: num mundo marginal-convertido-em-normal, o que há de transgressor é a aceitação, pela mãe do rapaz morto, do suposto neto que Odete carrega na barriga, ao mesmo tempo em que as cenas da prostituição de Rui, o amante do rapaz morto, são encaradas como a normalidade, ou mais ainda, como traduções possíveis do sentimento de luto aterrador vivido pelo rapaz. O universo de "Odete Alucinada" tem regras próprias, quase que opostas às regras pelas quais os espectadores conduzem suas vidas, e no entanto, desde a primeira cena (um longo zoom-out de um beijo apaixonado de Rui com seu namorado), João Pedro Rodrigues nos faz olhar para esse mundo como se a ele pertencêssemos. As reviravoltas, as bizarrices, as loucuras, estando ali dentro, não são mais que os desdobramentos prováveis de uma história simples de um rapaz que perde o grande amor de sua vida e de uma mulher que deseja ter um filho acima de todas as coisas. Por pensar o cinema como um espaço onde é possível incorporar a diversidade sem nunca ter sobre ela um olhar paternalizador ou julgador, e mais ainda, tratar a diferença como a possibilidade de pensá-la por dentro, e fazer surgir dali um cinema gêmeo do meio em que foi gerado, João Pedro Rodrigues já ganha uma categoria para si, e bem no alto da prateleira dos grandes realizadores atuais.

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