A Morte do Sr. Lazaresco (Cristi Puiu, 2005)
O titulo do filme já nos oferece uma informação importante: a morte do protagonista. É assim, sem rodeios, que o diretor Cristi Puiu nos avisa para esquecermos a possibilidade de Lazaresco não morrer, até porque logo de início fica claro que esse não é um filme que criaria uma ironia a partir do titulo. Não se deve perder tempo torcendo para a sua sobrevivência, o que importa é como cada pessoa que participa da odisséia - que sai da casa do senhor de 63 anos e passa por quatro hospitais em Bucareste a bordo de uma ambulância a procura de um diagnóstico e de um tratamento – reage diante do velhinho. O diretor e roteirista acerta quando constrói um perfil para cada um dos seus personagens que não se baseia em um traço de personalidade que é elevado a décima potência e que decide todas as atitudes deles. Todos aqui são inconstantes, variam de humor e de atitude (nunca exageradamente) e tem problemas próprios (como a enfermeira com a sua dor na vesícula ou os médicos com a impossibilidade de ajudar a todos), assim como satisfações, enfim, são realmente pessoas. O diretor trabalha a forma como as pessoas reagem diante de alguém que elas conhecem pouco ou não conhecem.
Mais do que uma crítica ao sistema de saúde da Romênia, que funciona como pano de fundo para a história, “A Morte do Sr. Lazaresco” é um questionamento sobre a mania de julgar antes de tentar entender e sobre o inevitável envolvimento de problemas pessoais no relacionamento com pessoas alheias a eles. O fato de o Sr. Lazaresco estar bêbado quando precisa de ajuda é deteminante para o tratamento de uma dor de cabeça que nada tem a ver com o seu vício. No final das contas, o filme acaba sendo um interessante estudo sobre o mosaico de personalidades que compõe uma sociedade e de como elas interagem para um bem comum. Mesmo que grosserias e absurdos saiam da boca de alguns, principalmente quando se trata da diferença hierárquica entre a enfermeira e os médicos – assunto importante aqui, já que todos preferem não confiar nos conhecimentos de uma pessoa tão necessária para salvar vidas quanto qualquer outra nesse ramo, infelizmente acaba importando mais a ostentação da posição dentro daquele sistema – ainda afirmar-se que esse filme é a favor da sociedade e não contra ela. Mesmo que seja mal-estruturada, ela não é baseada no egoísmo, como vemos nessa história em que todos os personagens não tem nada a ganhar ao ajudar o velhinho. Mesmo que muitos tenham um lado sádico, irônico ou até mesquinho, são poucos os que parecem realmente prejudicar a empreitada pela busca a um tratamento de Lazaresco, parece que o problema maior não está nas pessoas que agem diretamente, mas nas que deveriam dar as condições necessárias para que aquelas fizessem um bom trabalho.
Para criar esse realismo, é interessante notarmos o trabalho de câmera, de estruturação do cenário e de escolha dos sons que habitarão o filme. Essa última é basicamente a composição de sons diegéticos que irão compor com acuidade o espaço fora de tela. Já o cenário e a câmera trabalham em conjunto. Aquele é minuciosamente composto por objetos de cenas precisos. A diferenciação entre o lar do protagonista, por pior que seja, e os estéreis hospitais pelo qual ele passa se dá pela falta de objetos reconhecidos como pessoais. Mesmo com tanta precisão no cenário, a câmera nunca passeia por ele tentando analisá-lo. Ela se coloca como um narrador-personagem que precisa entender o que se passa com esse senhor. A câmera na mão é constante para afastar a possibilidade de uma composição hiper-planejada. É interessante que ela siga o Sr. Lazaresco, mas sem se manter preso a ele. O que ela quer é entender a situação e quanto mais a história vai sendo entregue as mãos dos outros personagens (pois o protagonista vai perdendo a sua lucidez) mais ela se move para se aproximar deles e entender o que está acontecendo.
Ao chegarmos ao fim do filme, constatamos que a capacidade de comunicação era essencial para evitar um tipo de reificação do protagonista. A cena final, na qual ele é limpo para a cirurgia no cérebro, é triste, não pela iminente morte daquele que estamos acompanhando há mais de duas horas, mas pela falta de um tratamento “personalizado” a ele. Estamos diante de uma obra bem diferente das grandes do cinema contemporâneo, mas que de maneira nenhuma fica para trás em nenhum aspecto relativo a qualidade. Se Cristi Puiu era um diretor quase que desconhecido para muitos de nós, agora ele se tornará um cineasta com uma obra a construir diante dos nossos olhos.
