23 setembro 2005

Festival do Rio, uma apresentação

O tempo das filas já passou, alguns dos filmes mais disputados já esgotaram, mas não é tarde para fazer uma breve seleção – bem, nem tão breve – sobre o que está disponível para nossos olhos curiosos nessas próximas duas semanas. Primeiramente, uma reclamação. Por que em vez de unir várias mostras importantes num espaço de tempo exíguo, o Festival não traz algumas delas ao longo do ano? Afinal, quem vai acabar vendo os filmes de Raymond Depardon – por melhores que sejam – diante de tamanha seleção? Dessa forma, saem prejudicados tanto os organizadores – pela falta de público – como os espectadores – pela perda de alguns filmes que, em qualquer outra estação, certamente seriam vistos -. Além do mais, que história é essa de colocar diversas obras importantes praticamente só na Barra, muito longe do resto do circuito do festival?

Bem, mas não é tempo de reclamação, por certo. Melhor perder bons filmes do que não ter bons filmes para ver. E, nesse ano, de bons filmes estamos cheios, felizmente. Se 2004 era o festival das produções francesas – como bem alertavam as propagandas ao longo do mesmo – não seria uma inverdade dizer que este é o das asiáticas. Não só pela mostra da produtora japonesa Shochiku – da qual passarão alguns filmes raros dos fundamentais Yasujiro Ozu e Nagisa Oshima, dentre outros -, como pela presença dos imperdíveis – troque imperdível por importante, leitor – The Wayward Cloud, de Tsai Ming Liang; O Mundo, de Jia Zhang-Ke; Café Lumiere, de Hou Hsiao-hsien; Election, de Johnnie To; Meu Deus, Meu Deus, Por que me abandonaste?, de Shinji Aoyama; Seven Swords, de Tsui-Hark; Uma Mulher Coreana, de Im-Sang Soo; sem contar com a presença de 2046, de Wong Kar Wai, não citado entre os outros pela enorme possibilidade de estrear (ao contrário de todos os anteriores). Não está satisfeito, leitor? Pois bem, a lista oriental continua com outras boas pedidas. Dois filmes de Yoji Yamada – A espada oculta e O samurai do entardecer -; Dumplings, de Fruit Chan; Blood and Bones, de Yochi Sai (com Takeshi Kitano) e O Gosto do Chá, de Katshushito Ishii (do qual eu não gostei muito, é verdade, mas sei de um bom número de pessoas, inclusive neste blog, que acham o contrário). Para finalizar a parte oriental, como se não bastasse, quem gosta do diretor de Old Boy – eu não, principalmente depois do episódio de Três Extremos – pode se deliciar com as apresentações do filme citado, além de Senhor Vingança e Lady Vingança. É, pelo visto é mesmo o festival dos olhos puxados.

Mas, para os que querem manter os mesmos bem abertos, há ainda outras belas opções. Entre as mostras exibidas, se destaca – fora a já citada Shochiku – a Cine Que Pensa (também conhecida como pior nome de mostra de todos os tempos), que infelizmente passa praticamente apenas no Memorial Getúlio Vargas e pelo visto com projeções em dvd. Mas, se você está a fim de alguns clássicos, porém, a oferta é apetitosa, indo desde alguns diretores raros como Chris Marker – Sem Sol, O Fundo do Ar é Vermelho - até outras opções de maior alcance, como Outubro. Nos tempos livres, portanto, uma excelente opção. A Ocupação é legal também, com alguns clássicos franceses como Boulevard do Crime e O Corvo. As legendas, porém, pelo visto são em espanhol. Da Tesouros da Cinemateca, é imperdível a – infelizmente já lotada, apesar de ainda sobrarem 20 por cento dos ingressos para serem vendidos no dia – exibição de Encouraçado Potemkin no Carlos Gomes acompanhada da OSB, assim como a sessão única de Soy Cuba (não confundir com seu quase homônimo Soy Cuba – O mamute siberiano). Raymond Depardon é um cara que vale a pena ser conhecido, mas temo que terá de ficar para uma outra oportunidade. Sobre o resto das mostras especiais – Capacete, Brasil com Z, Cineconstrucción, Filme Doc, Fronteiras, Geração e Fanzinema (com alguns bons filmes, mas que devem entrar em cartaz) – nada de especial.

Das já famosas Midnight Movies, Mundo Gay, Premiere Latina, Expectativa e Dox – apesar das muitas curiosidades advindas das sinopses, como Eu Sou Viciado em Sexo –, assim como do país homenageado – no caso, a Espanha -, pouco se sobressai. Em todo caso, vale recomendar Os Artistas do Teatro Queimado, de Rithy Panh; A Morte do Senhor Lazaresco, que ganhou o Um Certain Regard em Cannes; O Método, de Marcelo Piñeiro; O Céu Gira, de Mercedes Alvarez; Odete Alucinada, de João Pedro Rodrigues; além da exibição de Garganta Profunda no cinema. Na programação brasileira, apesar de uma penca de possíveis bons filmes, quase todos devem estrear em pouco tempo.

Sentindo falta dos diretores famosos, leitor? Pois bem, há ainda Jim Jarmusch com Flores Partidas, Manoel de Oliveira com Espelho Mágico, Michael Haneke com Caché, irmãos Dardenne com L’Enfant, Werner Herzog com Homem-Urso e Além do Azul, Raoul Ruiz com Dias no Campo, Lars Von Trier com o fraco Manderlay e o roteiro do horroroso Dear Wendy, Gus Van Sant com o fenomenal Last Days, Makhmalbaf com Sex and Philosophy, Amos Gitai com Free Zone, além dos que já contam com legenda direta – e portanto devem entrar em cartaz rapidamente – Oliver Twist, do Polanski e Eros, filme de episódios com Antonioni, Kar Wai e Soderbergh. Boa parte desses filmes aqui citados estão esgotando, por isso devem ser comprados rapidamente na Central de Ingressos.

Para essa sexta, eu recomendo principalmente O mundo, que depois de hoje sai da Zona Sul e encerra sua temporada na Barra (eu sei, para alguns isso é melhor, mas para quem vos escreve infelizmente não). Como Cachê foi adiado e Uma Mulher Coreana entrou em suas sessões, esse dia inicial pode começar com uma excelente dobradinha asiática – pelo menos é isso que farei -. Espero o resto dos leitores no cinema, portanto.

p.s: fiquem longe de A Febre, Cachimba, Noiva e Preconceito, e – óbvio, pela crítica anterior – Crash. Todos estão na minha lista não apenas de piores filmes do Festival, mas de piores filmes já vistos (sendo um tanto quanto ranzinza, é claro, mas é meu direito, não?).